Governança corporativa: o homem e a atitude
Sueli Berselli*
Especialistas em análise de mercado e riscos examinaram o momento atual e ainda não chegaram à grande conclusão de que está faltando um vetor de peso, essencial para compor seus cálculos: o ser humano. O ser humano e sua relação com o dinheiro.
É o ser humano quem decide se vai ou não cumprir as regras; é dele que saem deliberações sobre qual estratégia será adotada, qual será o número a ser digitado para compor os resultados, qual relatório será utilizado e sobre se os riscos devem ou não ser publicados. Cabe ao homem, o centro do universo, a decisão de ser ético ou não. É nele que se encontra o presente e o futuro da humanidade.
Hoje, é inconcebível pensarmos em gestão sem tecnologia. Mas, junto com a tão importante tecnologia, está quem a faz funcionar. Muitas vezes, por ganância, o homem não hesita em violar suas convicções, usando o poder que possui para modificar resultados.
Quando analisamos as melhores práticas da governança corporativa, encontramos os melhores dos mundos em gestão. Se realmente for praticada, isto é, se o responsável humano decidir ser totalmente sincero (ética é sinceridade), e tomar a atitude de construir todas as estratégias e o desempenho das companhias com honestidade e transparência, simplesmente não existirá crise por ausência de credibilidade.
A governança precisa de líderes que tenham e transmitam respeito pela sua história de vida e profissional, na qual a integridade e as suas ações sejam reconhecidas simplesmente pela sua presença.
O Conselho de Administração é parte essencial neste processo. Esse é o motivo para que os membros realmente sejam independentes, que sejam de diversas áreas, comprometidos com a empresa, dedicados, e que tenham rotinas, fluxos de informações objetivas, úteis e imediatas, além de políticas claras.
Por exemplo, como os bancos explicarão as perdas com o esquema fraudulento do investidor Bernard Madoff? Antes de sair algemado, pelo FBI, frequentava regularmente as festas do jet set e era sempre fotografado com os chefões do mercado financeiro. Agora, vem a conta dos prejuízos provocados aos investidores de grandes bancos. O HSBC perdeu US$ 1 bilhão, o Royal Bank of Scotland US$ 400 milhões, o BBVA e o Nomura (Japão), cerca de US$ 300 milhões cada um. O BNP-Paribas perdeu US$ 408 milhões.
Geralmente, os bancos afirmam que analisam cuidadosamente as operações de fundos de terceiros vendidos. É surpreendente que essa fraude tenha acontecido por tanto tempo, talvez durante décadas, enquanto os investidores continuavam investindo mais dinheiro nos fundos de Madoff. Não existe milagre. Se a rentabilidade das aplicações de Madoff era tão superior a qualquer outra do mercado, é lógico que havia algo errado, mas os investidores queriam ganhar mais e mais e, mesmo sabendo bem lá no fundo do perigo, o incontrolável “ter mais para si” dominava. Aqui cabe uma citação de Sólon: ”Quanto mais se tem, mais se quer”.
E a pirâmide desabou, porque um cidadão ético observou que a matemática não batia e tomou a atitude de denunciá-lo à SEC (Security and Exchanges Comission), durante anos e anos (quase dez). Mesmo com muitas informações palpáveis, o órgão fiscalizador não considerava várias provas como concretas.
Também assistimos à mídia publicar, desde 2000, que havia a probabilidade de uma crise mundial, porque havia algo destorcido no mercado de subprime, mas os responsáveis pela classificação de riscos continuavam a publicar (mesmo sendo sabedores da verdade) indicadores otimistas, sem mencionar que utilizavam estes indicadores para uso próprio em claro conflito de interesse. E contavam ao mundo que as suas eram as melhores práticas de governança.
No epicentro do caso estava o homem egoísta conduzindo a vida de outros milhões que para o “ter”, ser socialmente aceito e assimilado, aceita perder sua autenticidade, individualidade e saúde. Acostumamos a viver em um mundo em que o que vale é ganhar a qualquer custo, numa passividade intensa, vivida em submissão ao poder exclusivo do capital. Afinal, já dizia Russel que nossa inteligência é medida pelo quanto ganhamos (infelizmente).
Conforme conceitos de Michael Jensen e William Meckeling (a Teoria de Agência, que é base da governança corporativa), é necessário controlar todos os mecanismos de controles recíprocos entre executivos, conselheiros, auditores, acionistas e reguladores.
Os investidores precisam não confundir os meios com os fins, e a empresa precisa valorizar e acompanhar as estruturas de governança. Já é comum nas empresas o cargo de diretor de governança corporativa para organizar todo o processo.
Com a crise, a governança corporativa se expôs e mostrou que só é válida para quem faz o dever de casa, e que continua sendo um excelente sistema de gestão para aqueles que têm a coragem de ter atitude ética e transparente na direção executiva de suas empresas. O momento, agora, pertence aos executivos que respeitem as leis e o próximo, e produzam resultados confiáveis, mas não a qualquer custo.
Berselli, Sueli
Sueli Berselli - É Diretora de Governança Corporativa e Novos Negócios da SBM Consultoria & Associados.
Utilização de texto autorizado por:
Keila Taira
Gerente de Unidade de Negócios HSM Management e Online
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